Na poeira dos dias

 

A decadência fascina-me. Mais do que um fim de vida compreendo-a como um fluxo, uma transmutação, parte de um ciclo, não um the end. De uma beleza às vezes feroz, às vezes voraz, outras subtil e delicada, é inerente a todas as coisas – as que respiram e as inertes, em escalas mais ou menos visíveis ao olho humano. De tecido vegetal ou animal a húmus, de rocha sólida a terra, inexoravelmente, respiração a respiração, átomo a átomo, esvaímo-nos lentamente, desvanecemo-nos na paisagem até sermos outro:  folha, nuvem, lagarta, pedra.

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Depois de ter sido espoliada há umas parcas semanas do meu melhor tomate coração de boi (pelo menos esse que eu desse conta) eis que os larápios voltaram a atacar levando-me não só 3 ou 4 dos melhores tomates da horta quase prontos a colher mas dando-me cabo do único pé de tomateiro da variedade Marmande que tinha e um dos poucos que ainda estava super viçoso… Estou para além de danada e antes que se atirem aos próximos coração de boi ainda a amadurecer deixei um avisozinho

A partilha tem definitivamente os seus limites humpf 

 

Cebolas, filmes e bandidos

cebolas

Colheita da cebola terminada. Balanço: ainda não será este ano que seremos auto-suficientes em cebolas mas para lá caminho. Considerando que comecei a colher desde meados de abril e ponderando que duram até meados de outubro está assegurado meio ano de consumo. Asneirei (este ano são umas atrás das outras) ao não apontar quantidades plantadas entre bolbilhos (em menor quantidade que plantei em meados de novembro se não estou enganada) e cebolo que plantei por duas vezes. Asneirada dupla porque também não apontei datas de plantação o que deveria ter feito  tendo em conta que a primeira leva estava bem mais desenvolvida que a segunda, o que pode ser explicado pelas condições meteorológicas mas enfim…

Enquanto não domino a arte de entrançar cebolas (e de congeminar uma forma de as pendurar) estão espalhadinhas numa mesa improvisada na cave a fazer companhia às nossas jurássicas 300 e picos  k7 de VHS com gravações em formato LP note-se. Não será má ideia harmonizar  uma cebolinha doce e sumarenta salpicada de sal e vinagre e um naco de broa amarela de milho com um bom clássico do cinema. Assim à primeira talvez o Feios, porcos e maus ou um western spaghetti. Um Kaurismäki também não será mal pensado. Ah claro e um copo de bom vinho tinto.  Um fora-da-lei porque não?

 

 

 

 

Ode ao tomate

peraAmarelo

De todas as curiosidades, como lhes chamam os antigos, para mim nada na horta diz mais verão do que o tomate. Fruto (sim, botanicamente é um fruto) bem amado por todo o mediterrâneo and beyond não concebo sequer o verão sem eles.

Confesso que os cultivo com crescente obsessão e este ano os pés de tomateiros devem rondar talvez a meia centena de uma dúzia de variedades diferentes. No top 3 constam o Pera amarelo, o Andine Cornue e o soberano absoluto e incontestável Coração de boi.

Descobri o Andine Cornue numa das minhas andanças pelos sites de sementes. Variedade tradicional dos Andes é um símbolo da história do tomate.  Proveniente da América Central e do Sul (Perú, Bolívia, Equador, Chile) o tomate foi trazido para a Europa pelos colonizadores espanhóis em meados do século XVI.  A  receção ao tomatl (em asteca) parece ter sido diversa:  se no sul da Europa foi rapidamente acolhido na cozinha,  por terras britânicas por exemplo  parece  ter sido primeiro adotado como planta decorativa tendo o fruto a fama de ser tóxico.

greenZebra

Tomate Green Zebra: mantém-se verde quando maduro

Dentro da família das solanáceas ou nightshades como os ingleses poeticamente lhes chamam e que inclui o tomateiro temos a batata e a beringela cuja folhagem é de facto tóxica. Já sobre a toxicidade da folhagem do tomateiro (e folhagem de pimentos e malaguetas também solanáceas) parece não existir consenso. Assunto a aprofundar em breve.

Mas de sombrio e noturno o tomate não tem nada e se já andamos a saborear os peras, cerejas e afins conto os dias para celebrar o verão com os vermelhos carnudos suculentos enormes deliciosos e únicos Coração de boi.

365 dias. 449 Kg. Gardening is a form of resistence.

 

veigaMaio2016

maio 2016

veigaJunho2017

junho 2017

1 Alface roxa. Rabanetes. Há precisamente um ano foram estes os primeiros vegetais colhidos na horta.  Um ano depois registo 449 kg colhidos. Da abóbora ao yacon semeei/plantei  60 diferentes tipos de vegetais, não contando as diferentes variedades. Nada mal tendo ainda em conta que comecei apenas com uma parte da área total que fui gradualmente aumentando, ocupando digamos uma média de cerca de 250m2. Nada mal também para uma horta quase de fim de semana (mais umas horitas aqui e acolá durante a semana).

A preços de mercado de produtos não biológicos o valor rondará os  900€, a maior parte consumidos por nós, alguns trocados, outros dados, alguns vendidos. Um ano bem perto da autossuficiência em legumes e tubérculos (falharam as batatas, as cebolas e as cenouras).

Confesso-me desavergonhadamente orgulhosa. Mas mais que tudo é isto que me move:  “Today and every day: Grow and eat good food. Find your grounding in the earth and connect to the nature that is in you — the nature that is you. Make space for wildness. BE wild. Tend and be tender. Don’t be good; be defiant. Cultivate compassion and empathy. Hold yourself in strength and dignity. Hold each other. “ – Gayla Trail

Esta senhora é uma inspiração:

yougrowgirl.com – gardening is a form of resistance

 

you eat girl!

joaninha&afideos

Não se deixem enganar pelo aspeto encantador e inocente destes bichinhos. Estas senhoras são capazes de comer, melhor dizendo, devorar afídeos à tripa forra, ingerindo 40, 50, 70 afídeos por dia (e as suas larvas comem ainda mais).

As joaninhas são uma das visões mais bem vindas na horta contribuindo  para o controle biológico de pragas e o equilíbrio do ecossistema. Esta(s) anda(m) na faxina das favas,  colheita particularmente apreciada pelos afídeos (mais vulgarmente conhecidos por pulgões) e têm feito um bom trabalho.

Enquanto não vêm os feijões, outro favorito dos pulgões, mantenho meia dúzia de plantas para lhes proporcionar habitat seja como local de acasalamento, postura de ovos ou abrigo, ou como alimento (presas ou pólen uma vez que há, pelo que sei,  algumas espécies de joaninhas “vegetarianas”). Pelo que observei e pesquisei as umbelíferas, também chamadas apiáceas, (funcho, endro, cenoura, salsa, pastinacas, …) são das plantas mais apropriadas para fornecer alimento (pólen e/ou presas) e/ou local de abrigo para larvas, pupas e adultos, além de local acasalamento e postura de ovos. Continuar a ler